Veneno de caracol marinho vira remédio contra dor
Veneno de caracol marinho vira remédio contra dor
Fórmulas inovadoras podem estar em animais do fundo do mar18 de março de 2026, às 10h28 - Tempo de leitura aproximado: 2 minutos


Pesquisadores mergulham no fundo do mar atrás de compostos inusitados que poderão ser usados em medicamentos para a dor crônica. Algumas soluções são encontradas no veneno de caracóis que habitam os oceanos. Esses caracóis de conchas coloridas dominam um arsenal bélico capaz de imobilizar, desorientar e matar suas presas, normalmente pequenos peixes.
Nos recifes do leste da Austrália, o Conus geographus contém um veneno potente o suficiente para matar um ser humano adulto. Com um pequeno arpão, ele injeta nos peixes um sofisticado coquetel de peptídeos, que atingem canais iônicos causando paralisia. Esse veneno Inspirou a descoberta de milhares de peptídeos biologicamente ativos conhecidos como conotoxinas, e são estudados há anos por Mandë Holford, química de venenos marinhos da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Helena Safavi, da Universidade de Utah, também nos Estados Unidos, lidera um laboratório de bioquímica especializado em venenos marinhos ao lado do biólogo Baldomero Olivera. O laboratório trabalha na identificação de peptídeos venenosos que possam ter usos terapêuticos, e desenvolveu a droga ziconotida para a dor crônica. A droga atua nas células nervosas da coluna vertebral e tem ação muitíssimo mais potente que a morfina.
O grupo de Safavi estudou caramujos-cone do gênero asprella, que vivem a até 250 metros de profundidades na costa das Filipinas. Eles observaram que uma espécie injetava veneno nos peixes e recuava, antes de atacar o mesmo peixe novamente mais tarde. O grupo levantou a hipótese de que essa estratégia permitia ao caramujo evitar se fixar em presas perigosas. Em seguida, descobriram um conjunto de peptídeos que imitam o hormônio somatostatina, e que provavelmente inibe a dor no peixe. Estes compostos podem se tornar candidatos para terapias contra dor, câncer e distúrbios endócrinos.

Na Universidade de Utah, o pesquisador da dor Michael McIntosh teve seu interesse por venenos marinhos despertado na graduação, quando purificou o peptídeo Conus magus que daria origem ao ziconotido. Seu grupo de pesquisas trabalha no isolamento e caracterização bioquímica de compostos que agem sobre receptores do sistema nervoso e canais de íons tanto em tecidos sadios quando em tecidos afetados por doenças.
As recentes pesquisas e descobertas com venenos de caracóis foram publicadas em uma reportagem da newsletter da Royal Society of Chemistry, que pode ser acessada aqui.
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Para saber mais
Cone snail venom peptides offer new hope for pain relief. Disponível em https://www.chemistryworld.com/features/cone-snail-venom-peptides-offer-new-hope-for-pain-relief/4023066.article?utm_source=cw_daily_tue&utm_medium=email&utm_campaign=cw_newsletters. Acesso em 13/03/2026.
Mandë Holford. Department of Organismic and Evolutionary Biology. Harvard University in Boston, US.
Helena Safavi Lab, University of Utah. Department of Biochemistry– https://safavi.biochem.utah.edu/research
Michael McIntosh. School of Biologial Sciences. University of Utah.
https://www.biology.utah.edu/faculty/michael-mcintosh/
