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Disponível em <https://crqsp.org.br/incidente-envolvendo-material-radioativo-no-ipen/>.
Acesso em 13/06/2026 às 08h38.

Incidente envolvendo material radioativo no IPEN: especialista esclarece dúvidas em entrevista ao CRQ-SP

Incidente envolvendo material radioativo no IPEN: especialista esclarece dúvidas em entrevista ao CRQ-SP

12 de junho de 2026, às 16h41 - Tempo de leitura aproximado: 6 minutos

A divulgação na imprensa de um incidente envolvendo material radioativo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN), em São Paulo, gerou dúvidas sobre os riscos associados à produção de radiofármacos e aos procedimentos de segurança adotados em instalações que trabalham com substâncias radioativas.

O caso veio a público após a circulação de informações sobre um evento registrado no Centro de Radiofarmácia da instituição durante atividades relacionadas à produção de geradores de Molibdênio-99/Tecnécio-99m, utilizados na medicina nuclear. Segundo informações divulgadas pelo IPEN, o fato ocorreu durante atividades rotineiras da unidade. A situação foi identificada pelos sistemas de monitoramento da instalação e, de acordo com o Instituto, não houve contaminação interna dos trabalhadores nem riscos para a população ou para o meio ambiente.

A repercussão do caso levantou questionamentos sobre o que caracteriza uma contaminação radiológica, como funcionam os sistemas de detecção utilizados em instalações nucleares e qual é a importância dos radiofármacos produzidos no país para a realização de exames médicos.

Para esclarecer os aspectos técnicos envolvidos, o CRQ-SP conversou com o Dr. Carlos Alberto Zeituni, integrante da Comissão Técnica de Energia (CTEN) do Conselho, tecnologista sênior da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e gerente do Centro de Radiofarmácia do IPEN/CNEN.

 

Carlos Alberto Zeituni é membro da Comissão Técnica de Energia do CRQ-SP

CRQ-SP: O caso envolveu o Molibdênio-99 e o Tecnécio-99m. O que são os radiofármacos e qual é a importância desses radioisótopos para a medicina?

Carlos Alberto Zeituni: O material do incidente foi o Molibdênio-99, que tem 66 horas de meia-vida. Este radioisótopo decai para Tecnécio-99m, que tem somente 6 horas de meia-vida. O IPEN é o único produtor nacional de um equipamento chamado Gerador de Tecnécio-99m. Esses geradores, produzidos há mais de 45 anos no Brasil, “geram” tecnécio-99m todos os dias, e o hospital “elui” esse líquido radioativo com uma solução para utilizá-lo em exames de diagnóstico.

O gerador funciona da seguinte forma: o Molibdênio-99 fica retido em uma coluna de alumina (Al₂O₃) dentro de uma blindagem de chumbo. Quando ocorre o decaimento, o Tecnécio-99m vai sendo formado e não tem afinidade química com a alumina, assim, ele se desprende da coluna. Com a passagem de uma solução salina estéril (NaCl a 0,9%) por essa coluna, separa-se o Tecnécio-99m do Molibdênio.

 

CRQ-SP: O que caracteriza uma contaminação radiológica e o que significa dizer que ela ficou restrita à vestimenta dos trabalhadores?

Carlos Alberto Zeituni: Contaminação radiológica é quando o material radioativo é encontrado em um local onde não deveria estar. No caso específico do ocorrido, após a manipulação de material radioativo, os trabalhadores, utilizando EPIs (luvas, máscara, propé, toucas e avental), passam ainda vestidos por detectores de radiação existentes na planta.

Diz-se que há contaminação quando é encontrada contagem de radiação nos EPIs. O procedimento padrão é a retirada desse EPI, que é segregado para que ocorra o decaimento radioativo (quanto mais tempo passa, menor é a radiação emitida).

É importante ressaltar que uma contaminação pode, em teoria, ser encontrada na pele do operador. Nesse caso, ele passaria por um processo de limpeza com materiais químicos que absorvem as partículas radioativas. Mas, neste incidente, a contaminação ficou restrita somente à vestimenta.

 

CRQ-SP: Como funcionam os sistemas de monitoramento e detecção utilizados em instalações que trabalham com materiais radioativos?

Carlos Alberto Zeituni: Os sistemas de detecção e monitoração são portais e detectores que em contato com partículas da radiação ionizam um gás ou uma substância cintiladora que emite luz. Em qualquer um dos dois sistemas esta informação é proporcional a quantidade de radiação recebida, fazendo com que as pessoas que estão na área recebam um aviso sonoro ou numérico informando a presença de partículas radioativas acima da radiação natural do local.

 

CRQ-SP: Quando um evento de contaminação é identificado, quais procedimentos de segurança são normalmente adotados?

Carlos Alberto Zeituni: Em qualquer contaminação que ocorre, primeiro monitora-se as pessoas no local, verificando se atingiu os trabalhadores. Em caso positivo, essas pessoas são monitoradas individualmente e “descontaminadas”, ou seja, limpas de partículas radioativas externas. Em seguida, elas são submetidas a um exame chamado de “Corpo Inteiro”, no qual é verificado se houve contaminação interna, ou seja, se o trabalhador possui partículas radioativas dentro do corpo. Se isso ocorrer, utilizam-se substâncias que absorvem essas partículas, que posteriormente são eliminadas pelas excretas.

Após a análise das pessoas, a atenção se volta para o local da contaminação. Quando identificada, a área é isolada e passa por um processo de “limpeza” com produtos que absorvem as partículas radioativas. Ressalto ainda que todo o material utilizado é segregado, aguardando seu decaimento.

Todo e qualquer incidente é reportado à ANSN por meio de um relatório de ocorrência, e cada caso gera uma análise de um grupo interno voltada à melhoria dos processos e/ou ao retreinamento das pessoas envolvidas.

 

CRQ-SP: Para o público leigo, termos como “radiação” e “contaminação radiológica” costumam causar preocupação. Como diferenciar uma ocorrência controlada de uma situação que realmente represente risco à saúde ou ao meio ambiente?

Carlos Alberto Zeituni: Entende-se como ocorrência controlada aquela que está contida dentro de áreas isoladas e segregadas do público. A ocorrência registrada no IPEN aconteceu dentro da chamada área quente de produção, ou seja, uma área isolada em que os trabalhadores entram com EPIs e são constantemente monitorados.

Quando um incidente ou acidente ultrapassa essa área isolada, passa a ser entendido como uma emergência radiológica, situação em que as autoridades precisam agir rapidamente para isolar as áreas externas e mitigar a ocorrência.

 

CRQ-SP: Qual é a atuação do profissional da Química na produção de radiofármacos e na garantia da segurança e qualidade desses processos?

Carlos Alberto Zeituni: Grande parte da produção dos radiofármacos é realizada por químicos, já que os isótopos radioativos devem ser ligados a moléculas específicas para a produção dos fármacos, ou melhor, dos radiofármacos. Além disso, todos os lotes dos processos de produção devem ser monitorados individualmente quanto à presença de contaminações, falta de esterilidade, entre outros aspectos. Para isso, juntamente com o processo produtivo, existe um laboratório de controle de qualidade que, utilizando HPLC, detectores gama e calibradores de dose, garante a qualidade dos processos produtivos.

Também são realizados ensaios microbiológicos para garantir a esterilidade dos produtos injetáveis produzidos. Além disso, devem ser controlados parâmetros como pH, osmolaridade, entre outros, não apenas nos produtos finais, mas também nos reagentes que serão utilizados na produção. Todo esse trabalho é realizado por um grupo de químicos que prepara diariamente as soluções para as produções e por outro grupo de químicos responsável pela análise dos produtos e reagentes.

Apenas para demonstrar a importância dos químicos na produção de radiofármacos, a chefe da Garantia da Qualidade do IPEN é química.

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