Marca do CRQ para impressão
Disponível em <https://crqsp.org.br/evolucao-dos-produtos-ceramicos/>.
Acesso em 23/05/2024 às 07h12.

Evolução dos produtos cerâmicos

Evolução dos produtos cerâmicos

Tijolo

Foto: Karsten Paulick from Pixabay


A história dos tijolos remonta aos primórdios da civilização humana, já que os povos desenvolveram técnicas de produção desde a Antiguidade. Investigações arqueológicas indicam que os primeiros tijolos empregados na construção foram fabricados na Mesopotâmia, e datam de 4000 a.C. Eram secos ao sol. Os tijolos começaram a ser queimados em torno de 3000 a.C. para uso em revestimentos externos e na construção de muros de proteção. No Antigo Egito os tijolos foram produzidos ao longo de várias dinastias; normalmente eram largos e não queimados. Os romanos eram grandes fabricantes de tijolos e desenvolveram a arte de revesti-los com esmaltes coloridos. Cada trabalhador romano produzia manualmente entre 120 e 140 tijolos grandes ou 220 a 240 tijolos menores por dia. Foram os romanos que disseminaram pela Europa e norte da África a técnica de produção de tijolos.

Durante séculos os sistemas de produção não mudaram muito em relação aos métodos primitivos: a produção era manual, a secagem feita no sol e a queima em fornos a lenha. As coisas começaram a mudar em 1780, quando as fábricas passaram a usar máquinas a vapor para facilitar o trabalho. Com auxílio destas máquinas, tarefas como extração de matérias-primas, preparação da massa e moldagem ficaram mais rápidos, permitindo o aumento da capacidade de produção. Também surgiram os fornos especiais, e a forma dos tijolos foi padronizada. Mas somente em 1854 foi dado o grande passo rumo à mecanização: o mecânico alemão Carl Schlickeysen inventou uma máquina extrusora, abrindo caminho para a produção em série e para a indústria moderna. Esta primeira máquina modeladora, acionada por cavalos, produzia 1.500 tijolos por dia.

Azulejo – Murais de azulejos já eram produzidos no Antigo Egito, em 5.000 a.C. Os egípcios utilizavam o cobre para criar esmaltes de duas tonalidades, azul turquesa e verde. O império assírio, entre os séculos XIII a.C. e VII a.C, também dominava a arte de produzir azulejos coloridos, que adornavam seus palácios, templos e residências de luxo. Os zigurates, construções religiosas dos assírios, tinham tijolos coloridos e vitrificados de grande beleza. Os babilônios do século XIII a.C. ao século VI d.C. fabricavam azulejos com figuras coloridas pintadas com esmaltes.

 

 

Os árabes desenvolveram várias técnicas de produção de azulejos e decorações entre 1000 e 600 antes de Cristo, criando um novo estilo na arte cerâmica. A própria origem do nome azulejo é árabe: al zulaich, que significa pequena pedra brilhante. Quando o Egito, o norte da África e partes da Espanha e de Portugal foram conquistadas por tribos árabes, entre o 8º e o 14° século depois de Cristo, a arte islâmica e sua arquitetura influenciaram a arte e a arquitetura dos europeus. As paredes de azulejos de Alhambra e o palácio dos reis mouriscos em Granada, na Espanha, são exemplos dessa influência.

A Holanda se tornou um importante centro produtor de azulejos nos séculos XVII e XVIII, e a cidade de Delft ganhou fama por produzir os famosos azulejos e porcelana branca e azul. Os artesãos holandeses fabricavam azulejos decorados e painéis para decorar palácios, igrejas e conventos de vários países, inclusive o Brasil, até o final do século XIX. Portugal começou a utilizar o revestimento cerâmico em seus prédios a partir do século XVI, e a azulejaria se tornou uma arte nacional e marca registrada do país. No século XVIII, o Marquês de Pombal criou a Real Fábrica de Loiças, que dinamizou os métodos de produção e popularizou os azulejos. No antigo convento Madre de Deus em Lisboa, hoje transformado em Museu do Azulejo, um dos painéis é formado por 931 peças.

Itália e Espanha produziam azulejos em maiórica com cores fortes e desenho geométrico, que eram empregados principalmente em pisos. No século XIX a Inglaterra começou a produzir azulejos em escala industrial, e sua indústria se expandiu rapidamente durante a revolução industrial. Na virada do século XX, com a busca por higiene e limpeza, os azulejos passaram a ser utilizados em cozinhas e banheiros das casas, e ganharam espaço em locais como estações de metrô, murais e prédios.

 

 

No Brasil os azulejos começaram a chegar no século XVII, trazidos de Lisboa. Eram painéis para decoração, retratando paisagens, o cotidiano da metrópole ou cenas bíblicas. O uso do azulejo se tornou cada vez mais frequente a partir do século XIX, inclusive por ser um revestimento adequado ao clima do país.

Louça sanitária – Uma das denominações de banheiro é WC, cuja sigla significa water closet. Quem cunhou o termo foi o inventor inglês John Harrington (1561-1612), que criou o primeiro vaso sanitário a usar água corrente para transportar os dejetos. Harrington entrou para a história do saneamento básico porque, em 1596 convenceu sua madrinha, a Rainha Elizabeth I, da Inglaterra, a instalar uma privada no Palácio real de Richmond. Para divulgar sua invenção, Harrington publicou um texto informativo intitulado A Metamorfose de Ajax, alardeando as vantagens de seu invento, que causou escândalo e foi ridicularizado na época. O método de Harrington só se popularizou quase 200 anos depois, a partir de 1778, quando o engenheiro e inventor inglês Joseph Bramah criou a bacia sanitária com descarga hídrica. Muito cara, e totalmente de metal, ela só era instalada em hospitais e casas de nobres.

 

Em 1848, em meio a sérios problemas de saúde pública e poluição dos rios, o governo inglês aprovou uma lei que lançaria as bases para o saneamento básico. Ela determinava que cada residência dispusesse de um banheiro com água corrente, uma latrina separada da casa principal ou uma fossa com cinzas para os dejetos. O governo inglês também liberou verbas milionárias para incentivar as pesquisas sanitárias e de engenharia, e começou a construir um sistema de canalização de esgotos. Com a canalização sendo construída, a fabricação de equipamentos sanitários começava, finalmente, a fazer sentido. Após o incentivo oficial, as fábricas de cerâmicas de Josiah Wedgwood, Thomas Twyford e John Shanks se aliaram a inventores e criaram novos modelos de vasos sanitários. Eles substituíam o bronze e os metais caros usados pelo sistema de Bramah por equipamentos cerâmicos. Mas a grande evolução ocorreu em 1870, quando a fábrica de cerâmica de Thomas Twyford criou inovações no equipamento de Bramah dispensando as partes metálicas, e patenteou o vaso sanitário em uma peça única.

No Brasil, até 1920 não havia produção de louça sanitária e as peças, importadas da Europa, custavam muito caro. As primeiras fábricas se instalariam nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo entre as décadas de 1920 e 1940, e Jundiaí se tornaria um importante polo produtor. No final da década de 1960 a indústria do setor ganhou grande impulso, e a produção brasileira saltou de 2 milhões de peças por ano para os mais de 20 milhões de peças atuais. Hoje o país é um dos maiores produtores mundiais de louça sanitária, e conta com 20 unidades fabris. Oito estados brasileiros têm fábricas de louças sanitárias, inclusive a região nordeste e Minas Gerais, onde a produção é voltada para a população de baixa renda.

Porcelana – A fórmula e a técnica de queima da porcelana foram inventadas no século VI na China, que dispunha de grandes reservas de caulim e feldspato, dois de seus ingredientes. Os chineses mantiveram em absoluto segredo a fórmula e os métodos de produção durante séculos. Os europeus conheceram a porcelana quando Marco Polo voltou do Oriente, em 1295, e passaram a importar da China toda a louça de qualidade que utilizavam. A importação, feita pelos holandeses, atingiu tais proporções que os chineses desenvolveram padrões artísticos que agradavam aos europeus. A Europa, enquanto isso, financiava pesquisas para tentar descobrir os ingredientes da porcelana, e desenvolvia outros tipos de louças, como a faiança e a maiólica. Em 1709, depois de anos de pesquisa, dois alemães, o físico E.W. Von Tschirnhaus e o alquimista J.F. Böttger, conseguiram produzir porcelana, o que levou à fundação da Real Fábrica de Meissen, na Alemanha. Assim como os chineses, a fábrica de Meissen tentou manter a preparação em segredo, mas a espionagem industrial fez com que a fórmula fosse vendida aos franceses, que abriram em 1756 sua primeira fábrica em Sèvres. A Manufacture Royale de Porcelaine em Sèvres ganhou apoio do Rei Luis XV e empregou alguns dos maiores químicos da França, como Pierre Joseph Macquer. Logo foram fundadas fábricas de porcelana pela Europa, na Áustria, na Itália, na Espanha, na Alemanha, na Dinamarca e na Suécia, e também na Rússia.

Na Inglaterra, a fábrica de Bristol, fundada em 1770, foi primeira indústria de porcelana de pasta dura. Depois, Josiah Spode desenvolveu a bone china, uma porcelana feita com cinzas de ossos, ou seja, fosfato de cálcio, que a deixa mais branca e menos quebradiça, e abriu fábricas em Shelton e Stoke. A bone china tornou-se a porcelana mais popular da Inglaterra e Estados Unidos. Ainda no século XVIII, a fábrica de Josiah Wedgwood desenvolveu um produto intermediário entre a porcelana e a faiança, denominado fayence anglaise, que competiu com Meissen e Sèvres. Wedgwood, que pertenceu à Royal Society, foi um dos primeiros a estudar a cerâmica com uma abordagem científica e introduziu técnicas industriais que permitiam a produção em massa em suas fábricas.

 


No Brasil, tudo indica que o químico autodidata João Manso Pereira fabricou porcelana em 1793 no Rio de Janeiro, e teria esperado por um patrocínio da rainha Dona Maria I para consolidar sua produção. Foi um dos primeiros fabricantes de louças no país. As primeiras grandes fábricas começaram a se estabelecer no início do século XX em São Paulo, no Paraná e em Santa Catarina. Hoje o segmento de louça de mesa é bastante variado, e a produção se concentra em alguns estados, especialmente Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais, onde existem importantes pólos produtivos. As duzentas empresas do setor produzem 134 milhões de peças por ano, segundo dados da Associação Brasileira de Cerâmica.

Artigo produzido pela Assessoria de Comunicação do CRQ-IV, sob a supervisão
do Drº Antonio Carlos Massabni, Prof. Titular aposentado do Instituto de
Química da Unesp de Araraquara 
Publicado em 12/04/2011

 

Compartilhar