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Acesso em 24/05/2024 às 13h21.

Elementos Químicos – Ouro

Elementos Químicos – Ouro

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Um elemento especialmente brilhante
por Pedro Paulo Corbi

Vídeo produzido pelo Instituto Brasileiro de Mineração

Considerado por muitos como um sinônimo de riqueza, beleza e poder, o ouro (símbolo Au) ocupa um papel de destaque na história da humanidade. Este elemento químico está presente na natureza principalmente em sua forma nativa ou na forma de teluretos (AuTe2).

No entanto, há muito mais sobre este elemento químico, de número atômico 79, além dos seus aspectos mágicos e místicos descritos há mais de 4 mil anos. O ouro é um elemento químico relativamente pouco abundante na crosta terrestre (0,004 grama/tonelada), ocupando a 71ª posição dentre todos os elementos. Os maiores produtores mundiais são China, Austrália, Estados Unidos, Rússia, África do Sul e Peru. Na forma iônica, seus estados de oxidação mais comuns são (I) e (III).

Assim como o cobre e a prata, o ouro metálico está presente na composição de uma série de ligas metálicas com várias aplicações. Um destaque especial é na manufatura de joias (ourivesaria), na qual ligas de ouro, prata e paládio dão origem ao ouro branco, enquanto que diferentes proporções de ouro, prata e cobre dão origem ao conhecido ouro vermelho. Na fabricação de moedas, o ouro também ocupa um destaque especial desde o antigo Egito, quando este elemento foi primeiramente utilizado para esta finalidade. Para que se tenha uma ideia do poder que emanava deste elemento químico, a literatura descreve que não menos do que 112 kg de ouro foram encontrados no início do século XX junto ao sarcófago do Faraó Tutankamon, que reinou no Egito há mais de 3 mil anos.

Além dessas aplicações, o ouro está fortemente presente em eletrônica (manufatura de circuitos eletrônicos), em galvanoplastia ou processos de eletrodeposição, em tratamentos estéticos e na gastronomia.

O uso de compostos de ouro em medicina merece também um destaque todo especial. As primeiras descrições do uso puramente empírico deste elemento na medicina são atribuídas aos chineses e árabes há mais de 3 mil anos. Tais povos tinham este elemento como uma entidade capaz de curar todos os tipos de males. Já no século VIII d.C., este elemento foi tido como um elixir da juventude enquanto que, na Idade Média, o ouro em pó era consumido em bebidas para tratar uma variedade de doenças.

Imagem de Aranjuezmedina/FreePik

 

Porém, somente no final do século XIX o ouro começou a ser utilizado com alguma racionalidade em medicina. Em 1890, o bacteriologista alemão Heinrich Hermann Robert Koch (1843-1910) descobriu que o dicianidoaurato(I) de potássio tinha atividade antituberculose. Tais resultados impulsionaram as pesquisas envolvendo a preparação de novos compostos de ouro, sobretudo os tiolatos, que levaram à “década de ouro” de 1925 a 1935 para o tratamento da tuberculose.

Ainda naquele período, outros estudos mostraram também a eficácia de complexos de ouro(I) no tratamento da artrite reumatoide, muito embora naquela época não se soubesse a origem desta enfermidade. Na segunda metade do século XX, ensaios clínicos controlados foram capazes de provar a eficácia da terapia com ouro no tratamento da artrite. Surgiram então os fármacos comerciais auranofina, solganol e miocrisina, que foram utilizados, por muitos anos, em várias partes do mundo no tratamento da artrite reumatoide.

Atualmente, os complexos de ouro(I,III) têm sido amplamente pesquisados como potenciais agentes no tratamento de doenças como a malária e o câncer. Merece destaque também o uso do ouro na síntese de nanopartículas, que são definidas como partículas que possuem uma dimensão em escala nanométrica (100 nm ou menor, sendo que 1 nm equivale a 10-9 m). Estas nanopartículas têm se mostrado promissoras quanto às suas aplicações no diagnóstico de doenças por imagem, bem como em terapia fotodinâmica e carregamento e liberação controlada de fármacos.

Assim, há muito ainda para ser explorado quanto ao ouro, que deverá continuar reinando por muitos anos como um elemento especialmente brilhante.

 

Referências

1. N. N. Greenwood; A. Earnshaw. Chemistry of Elements, 2nd Edition. Butterworth-Heinemann Ltd., Great Britain, 1997.

2. R. E. F. de Paiva; P. P. Corbi. Int. J. Adv. Med. Biotech., 1, 2-7, 2018.

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4. S. Smolen; D. Aletaha; I. B. McInnes, The Lancet, 388, 2023-2018, 2016.

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8. M. Navarro et al. J. Med. Chem., 47, 5204-5209, 2004.

9. L. Dykman; N. Khlebtsov, Chem. Soc. Rev., 41, 2256–2282, 2012.

 

Docente do Instituto de Química da Unicamp
Publicado em  07/03/2029

 

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