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Acesso em 24/05/2024 às 14h25.

Cloreto de vinila e a explosão em Ohio

Cloreto de vinila e a explosão em Ohio

A importância dos profissionais da química no transporte de produtos químicos

6 de março de 2023, às 7h48 - Tempo de leitura aproximado: 10 minutos

Em 3 de fevereiro, no estado de Ohio (EUA), houve o descarrilamento de um trem que levava 20 vagões com produtos químicos perigosos. Dentre estes, os que causaram maior preocupação foram os vagões que transportavam cloreto de vinila (cloroeteno, pela nomenclatura da IUPAC –  sigla em inglês da da União Internacional de Química Pura e Aplicada).

O acidente provocou o transbordamento do conteúdo líquido dos vagões para o solo. Parte se infiltrou no subsolo, parte foi escoada pela superfície até atingir córregos locais e o Rio Ohio e boa parte se volatilizou na forma de cloreto de vinila gás [1], que por ser uma substância extremamente inflamável causou um grande incêndio, com a liberação de gases tóxicos.

O principal gás formado na combustão do cloreto de vinila é o cloreto de hidrogênio, substância tóxica por inalação [2], e que em contato com a umidade do ar forma o ácido clorídrico, causador da chuva ácida. Outro gás formado nessa combustão é o fosgênio, substância que, pela alta toxicidade e corrosividade [3], foi utilizada na Primeira Guerra Mundial como arma química.

 

Vagões pegaram fogo após descarrilhamento em East Palestine, Ohio
Vagões pegaram fogo após descarrilhamento em East Palestine, Ohio


O risco de exposição aos produtos da combustão que formaram a pluma de contaminação atmosférica foi muito preocupante, sendo necessária a evacuação de parte dos moradores de East Palestine. Para mitigação do risco de explosão catastrófica, as autoridades locais fizeram a queima controlada do cloreto de vinila. O cenário fez alguns jornais compararem o desastre em Ohio com o acidente de Chernobyl, o maior acidente nuclear da história. Mary Mertz, Diretora do Departamento de Recursos Naturais de Ohio, afirmou que aproximadamente 3.500 peixes foram encontrados mortos e muitos animais de estimação foram envenenados pela exposição à contaminação atmosférica advinda do acidente.

 

Morador da região fotografou a cortina de fumaça formada na noite do acidente


O risco de exposição aos produtos da combustão que formaram a pluma de contaminação atmosférica foi muito preocupante, sendo necessária a evacuação de parte dos moradores de East Palestine. Para mitigação do risco de explosão catastrófica, as autoridades locais fizeram a queima controlada do cloreto de vinila. O cenário fez alguns jornais compararem o desastre em Ohio com o acidente de Chernobyl, o maior acidente nuclear da história. Mary Mertz, Diretora do Departamento de Recursos Naturais de Ohio, afirmou que aproximadamente 3.500 peixes foram encontrados mortos e muitos animais de estimação foram envenenados pela exposição à contaminação atmosférica advinda do acidente.

 

Um relatório do mesmo departamento, datado de 23 de fevereiro, informa detalhadamente os danos à vida aquática registrados em córregos e cursos d’água próximos ao local do descarrilhamento. Segundo o relatório, pequenos peixes, anfíbios e outros animais já estão voltando aos cursos d’água [6].

O fosgênio é classificado pelo Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos (GHS), norma ABNT NBR 14725-2: 2019*, com as seguintes características:

  • Toxicidade aguda (Inalação), Categoria 1 – H330 Fatal se inalado;

  • Corrosão/Irritação à pele, Categoria 1B; Lesões oculares graves/irritação ocular, Categoria 1 – H314 “Provoca queimadura severa à pele e dano aos olhos”.

     

GHS e FRASES H

GHS é a sigla para Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos, que foi desenvolvido no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) para harmonizar os critérios de classificação de perigo de produtos químicos e sua comunicação aos trabalhadores no manuseio e armazenamento, assim como para facilitar o comércio internacional.

As frases de perigo H são advertências que indicam os perigos associados a uma substância química específica. Essas frases são utilizadas para alertar a severidade do perigo associada à classificação GHS nos critérios físicos, à saúde humana e ao meio ambiente.


O fosgênio na atmosfera tem meia vida de 44 anos e, por ser um gás mais pesado que o ar, tem elevado risco para a população do entorno no caso de exposição à pluma atmosférica, sendo necessária a evacuação das áreas até a redução da sua concentração a níveis seguros de exposição ambiental [3,4].

 

MONÔMERO DO CLORETO DE VINILA / POLICLORETO DE VINILA (PVC)

O monômero do cloreto de vinila é um composto orgânico sintético que é produzido pela reação entre o gás etileno e o gás cloro. Nas Condições Normais de Temperatura e Pressão (CNTP), trata-se de um gás incolor inflamável, com um odor doce e picante.

O composto é usado principalmente na fabricação de policloreto de vinila (PVC), um dos plásticos mais conhecidos e utilizados no mundo, em diversas aplicações, tais como: tubulações residenciais, isolante em fios elétricos, revestimentos em construção civil, de pisos, filmes e tecidos, entre outras.

Embora o PVC seja considerado um risco ao meio ambiente devido ao seu longo tempo de decomposição (entre 200 a 600 anos), este material inerte não se aproxima nem de perto dos riscos ao meio ambiente e à saúde humana decorrentes de acidentes com o monômero do cloreto de vinila, um dos principais produtos presentes no acidente de Ohio [1,5].

O cloreto de vinila é classificado pelo GHS, norma ABNT NBR 14725-2: 2019*, como possuindo as seguintes características:

  • Gases inflamáveis, Categoria 1 – H220 “Gás extremamente inflamável”;

  • Carcinogenicidade, Categoria 1A – H350 “Pode provocar câncer”;

  • Perigoso ao ambiente aquático – Agudo, Categoria 3 – H402 “Nocivo para os organismos aquáticos”.

O alerta para esse produto está relacionado à contaminação do solo e da água subterrânea (aquíferos). O cloreto de vinila poderá levar décadas para ser naturalmente eliminado. Por se tratar de substância carcinogênica, residências que estejam acima do aquífero contaminado podem ser um local com elevado risco de contaminação, sendo necessárias a investigação e a remediação da área contaminada.

Além do PVC – O monômero do cloreto de vinila é utilizado para produzir uma variedade de outros materiais, incluindo:

  • Acetato de polivinila (PVA): um polímero termoplástico usado em adesivos, revestimentos, tintas e outros produtos químicos;

  • Copolímeros de cloreto de vinila: são polímeros que contêm cloreto de vinila juntamente com outros monômeros, como acetato de vinila, acrilonitrila, estireno e butadieno. Esses polímeros são usados para produzir uma ampla gama de produtos, incluindo tubos, cabos, mangueiras, filme plástico, adesivos e revestimentos;

  • Policloreto de vinila clorado (CPVC): é um polímero que é produzido adicionando cloro ao PVC. O CPVC é usado para produzir tubos e conexões que são resistentes a temperaturas mais elevadas e a produtos químicos.

Transporte –  O monômero do cloreto de vinila é armazenado e transportado sob pressão para liquefazê-lo. Para o transporte do monômero do cloreto de vinila, o número ONU é 1086, com classe de perigo 2.1 e número de risco 239, que significa gás inflamável, sujeito a violenta reação espontânea.

 

NÚMERO ONU

O número ONU é um código numérico de quatros dígitos usado para identificar substâncias químicas, materiais e artigos perigosos para fins de comércio internacional e transporte terrestre, aéreo ou marítimo de produtos perigosos.

O número ONU pode ser específico para uma substância, ou pode abranger um grupo de substâncias com propriedades semelhantes em termos de classe de perigo.
Nesse sistema de classificação, diferente do GHS, as classes de perigo são apenas para efeitos agudos, que são as mais importantes no caso de ações de emergência envolvendo o transporte de produtos químicos perigosos.

 

O PROFISSIONAL DA QUÍMICA E AS MEDIDAS PARA PREVENIR ACIDENTES

Este acidente, assim como outros envolvendo o transporte de produtos químicos perigosos, serve como um alerta para a necessidade permanente de realizar uma análise de risco criteriosa e avaliar as medidas de segurança necessárias que devem ser adotadas quando do transporte de produtos químicos, seja no exterior ou no Brasil.

Essencial ressaltar a importância de que as empresas que realizam o manuseio e o transporte de produtos químicos aqui no Brasil mantenham um profissional da Química como responsável técnico. Este profissional vai coordenar todo o processo e adotar as medidas preventivas requeridas, a fim de evitar que tais acidentes voltem a ocorrer.

Quando se trata do transporte de cloreto de vinila, assim como de outros produtos químicos altamente inflamáveis, é essencial que medidas preventivas sejam tomadas para garantir a segurança de todos os envolvidos e que uma análise de risco seja bem elaborada.

Dentre algumas medidas preventivas que devem ser adotadas durante o manuseio e o transporte de produtos químicos perigosos podem ser citadas:

  • Armazenamento adequado: armazenamento de acordo com as informações dispostas na Ficha de Informação de Segurança para Produtos Químicos (Fispq). No caso de produtos químicos inflamáveis, fazer o armazenamento em local fresco, seco e bem ventilado, longe de fontes de calor, chamas e outras substâncias incompatíveis;

  • Manuseio seguro: os trabalhadores devem usar equipamentos de proteção individual, como luvas, óculos de proteção e respiradores. Os produtos devem ser manuseados com cuidado para evitar vazamentos e derramamentos;

  • Transporte seguro: os produtos devem ser transportados em veículos apropriados, com equipamentos de segurança, como sistemas de contenção de vazamentos e placas de advertência, para evitar vazamentos e derramamentos durante o transporte;

  • Treinamento de segurança: os trabalhadores envolvidos no transporte e manuseio devem receber treinamento adequado em segurança química, incluindo o reconhecimento de sinais de perigo, procedimentos de emergência e equipamentos de proteção individual;

  • Inspeções regulares: as instalações de armazenamento e transporte de produtos químicos devem ser inspecionadas regularmente para garantir que estejam em boas condições de segurança e que as medidas preventivas sejam cumpridas adequadamente;

  • Uso de tecnologias de segurança: a utilização de tecnologias de segurança, como sistemas de monitoramento de vazamento, pode ajudar a detectar e prevenir acidentes durante o transporte e manuseio.

A implementação dessas medidas preventivas pode reduzir significativamente os riscos de acidentes durante o transporte e manuseio de produtos químicos perigosos em geral, garantindo a segurança dos trabalhadores, do público e do meio ambiente.

Além disso, é importante que as empresas sigam as regulamentações e leis aplicáveis ao transporte e manuseio de substâncias químicas perigosas, como a Resolução ANTT 5.947/21, a ABNT NBR 7500/21 e a ABNT NBR 14725, e que mantenham um plano de emergência em caso de vazamento ou acidente. A colaboração entre as empresas, as autoridades regulatórias e as comunidades locais também é fundamental para garantir a segurança e minimizar os riscos envolvidos na produção, transporte e uso de produtos químicos perigosos no país.

Conclusão – Em resumo, o cloreto de vinila é um composto químico importante para a indústria. A sua degradação térmica gera outras substâncias, como o fosgênio, cuja inalação é letal para o homem. Dessa forma, medidas preventivas precisam ser seguidas para o transporte desse produto químico, com a adequada comunicação de perigo nos documentos de segurança FDS/FISPQ e na documentação de transporte exigida pela Resolução ANTT 5947/21. Recomenda-se que a empresa mantenha um profissional da química como responsável técnico, o qual estará envolvido no controle e prevenção de acidentes. A segurança é a prioridade número um em qualquer operação que envolva produtos químicos tóxicos.

Para saber mais sobre segurança química clique aqui e acesse o artigo “GHS – Os significados dos símbolos dos rótulos dos produtos químicos”, publicado na seção QuímicaViva deste site.

 

Referências:

[1] GESTIS Substance Database, Vinyl chloride. 2023. Acessado em 16/02/2023.

[2] GESTIS Substance Database, Hydrogen chloride. 2023. Acessado em 16/02/2023.

[3] GESTIS Substance Database, Phosgene. 2023a. Acessado em 16/02/2023.

[4] Gad, S.C. Phosgene. Encyclopedia of Toxicology (Third Edition). Academic Press,2014, Pages 904-906.

[5] Luntz, S. What Is Vinyl Chloride, The Chemical That Caused Ohio?s Immense Explosion? 2023.  Acesso em 16/02/2023.

[6] Odnr Update On East Palestine Train Derailment Impact To Wildlife. Acessado em 24/02/2023.

* A ABNT NBR 14725 está em revisão e deverá ter uma nova versão publicada ainda em 2023. As informações contidas neste artigo levam em conta as normas em vigor no momento da publicação.


Texto elaborado pela Comissão Técnica de Segurança Química (CTSQ) do CRQ-IV/SP

Publicado em 01/03/2023

 

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