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Acesso em 13/04/2024 às 19h10.

A biodiversidade brasileira e a gestão do patrimônio genético

A biodiversidade brasileira e a gestão do patrimônio genético

Estes foram os assuntos discutidos no fórum on-line promovido pela CTCOS

26 de setembro de 2023, às 10h51 - Tempo de leitura aproximado: 5 minutos

 

A Comissão Técnica de Cosméticos do CRQ-IV/SP (CTCOS) promoveu uma live transmitida pelo canal da entidade no YouTube nesta segunda-feira com dois especialistas da indústria de cosméticos, Artur Luiz da Costa da Silva e Raul Carvalho Júnior. Na pauta, os ativos naturais oriundos da biodiversidade brasileira, especialmente da Amazônia, e a certificação de produto veganos. O mediador foi Matheus Vieira, Químico Industrial e membro da CTCOS.

A primeira palestra foi com Artur Luiz da Costa da Silva, professor de biologia da Universidade Federal do Pará, da Georg-August-Universität Göttingen, da Alemanha, e diretor técnico-científico da Organização Social BioTec Amazônia. Ele tratou da Autenticação e Certificação de Cosméticos Veganos por Método Molecular.

Silva abriu a palestra dizendo que desenvolveu o trabalho de certificação de produtos veganos a partir de uma demanda feita durante um encontro científico em Mônaco, quando foi questionado a criar produtos para um público vegano destinado ao uso em hotéis europeus; na ocasião ele foi informado de que no Brasil não existia certificação para o setor.

Daí criou-se um teste para detectar a contaminação em produtos que se dizem veganos, já que ainda não existia um selo para produtos cosméticos veganos no país. Segundo Artur Silva, ácidos fortes, bases fortes e detergentes tornam produtos de origem animal mais difíceis de serem detectados, e por isso o ideal de um produto vegano é ter a base testada, como gordura de açaí, gordura de cupuaçu. A partir daí adiciona-se o que for necessário para fazer cremes ou condicionadores, por exemplo.

 

Artur Luiz da Costa da Silva falou sobre sobre certificação de produtos veganos por método molecular

 

Para detectar a existência de moléculas de origem animal é usada a molécula de DNA mitocondrial, que é um ótimo marcador genético, e a técnica de PCR em tempo real; se há uma molécula de bovino, ovino ou até inseto na amostra, por exemplo, consegue-se amplificar a molécula, e rapidamente dá para verificar se há ou não contaminação no produto.

O especialista mostrou todas as etapas do teste PCR em tempo real, começando com a extração do DNA, sua quantificação e a verificação de sua integridade usando equipamento especial. Os testes são repetidos três vezes, já que é preciso ter certeza de contaminação antes de condenar um produto. Ele disse que este é um método muito poderoso, e pode haver contaminação inclusive por pessoas que manipularam produtos, citando o exemplo de testes feitos com palmito que mostraram contaminação, quando na verdade foi detectado o DNA dos trabalhadores que fizeram a manipulação do produto.

Supercrítica – Na segunda palestra, Raul Carvalho Junior, Engenheiro Químico pela Universidade Federal do Pará e pesquisador nível 2 do CNPq, abordou o tema Uso da Tecnologia Supercrítica na Verticalização das matérias-primas da Amazônia.

O pesquisador contou que decidiu investir na valorização dos frutos da Amazônia para que possam gerar novos produtos e recursos, e daí passou a utilizar a ferramenta supercrítica. Trata-se da extração de bioativos com fluido supercrítico, que usa solventes como água, etanol ou um gás, e depois leva este solvente ao estado supercrítico. A seguir explicou como se dá o processo supercrítico em todas as suas fases.

Carvalho Junior mostrou as matérias-primas da Amazônia já analisadas, como bacuri, cupuaçu e açaí, sendo que o primeiro trabalho foi sobre o óleo de açaí. Contou que quando estava fora da Amazônia decidiu criar o açaí em sachê. Quando separou a polpa do óleo de açaí obteve uma polpa liofilizada, em pó, com alto valor de antocianina. O óleo de açaí tem aplicações farmacológicas, com atividade antioxidante, anti-inflamatória e neuroprotetora; em alimentos ele pode ser usado como corante natural e em produtos funcionais e nutracêuticos.

 

Raul Carvalho Junior descreveu o uso da tecnologia supercrítica na verticalização das matérias-primas da Amazônia

 

A seguir mostrou o exemplo do óleo de bacaba, outra oleaginosa, que tem teor de gordura superior ao óleo de açaí. Suas pesquisas mostraram que este óleo tem ação cardioprotetora e é rico em ácidos graxos insaturados, podendo ser usado na indústria de cosméticos. O murici é uma fruta amarela com poucas aplicações no Pará, mas seu óleo possui luteína, que tem papel importante na degeneração macular e catarata; este óleo é muito rico e pode ser aplicado na indústria de cosméticos como aromatizante e hidratante.

Entre as plantas amazônicas o especialista citou as pesquisas feitas com o cipó-pucá, rico em substâncias antiglicêmicas, com efeito neuroprotetor e anti-inflamatório; as pesquisas com o óleo de copaíba, utilizado em tratamentos antipruridos, que também tem ação neuroprotetora; e com o jambu, já utilizado em bebidas alcoólicas, rico na substância espilantol, que causa analgesia.

Raul Carvalho Junior falou também da castanha do Pará, contando que milhares de castanheiras foram derrubadas para criação de pastagens no estado. Hoje, por meio da tecnologia supercrítica, é feita a extração do óleo da castanha, de onde são obtidos ácidos graxos; a farinha restante é rica em proteína, e é usada para a produção de uma carne de hambúrguer com proteína vegetal, o que gerou valor para a castanha. Ele mostrou também as características da ucuúba, que por meio da tecnologia supercrítica produziu uma manteiga que pode ser usada na indústria de cosméticos, com atividade antioxidante e atividade microbiana.

Ao final, os palestrantes responderam às perguntas dos participantes. A live, que até a publicação desta reportagem contava com mais de 400 acessos, está disponível neste link.

 

 

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