Livermório
Livermório
12 de março de 2026, às 10h00 - Tempo de leitura aproximado: 5 minutos
A descoberta marcada por polêmica e superação

O livermório, com símbolo Lv, é um elemento sintético, superpesado, provavelmente metálico, sólido e com aspecto prateado. É um metal altamente radioativo utilizado apenas em pesquisas científicas. Tem número atômico 116 e massa atômica 293.
Na tabela periódica, o livermório pertence ao grupo 16, o mesmo do oxigênio, enxofre, selênio, telúrio e polônio, e ao período 7. Acredita-se que seja um metal de pós-transição, também denominado de pós-transurânico.
O livermório foi produzido inicialmente pelo bombardeamento de átomos de cúrio com cálcio. Como é produzido artificialmente, não existe na natureza.
Cinco isótopos deste elemento químico já foram produzidos, com números de massa 288, 290, 291, 292, 293. O isótopo de mais longa duração é o 293, com meia-vida de aproximadamente 50 a 60 milissegundos.
História

Durante o século 20 foram feitas várias tentativas para produzir o elemento 116, mas nenhuma teve sucesso. Em 2000, pesquisadores do Instituto Central de Pesquisas Nucleares em Dubna, na Rússia, liderados por Yuri Oganessian, Vladimir Utyonkov e Kenton Moody, conseguiram obtê-lo. Ele recebeu o nome provisório de ununhexium, e símbolo Uuh.
Como a descoberta usou como alvo o material essencial fornecido pelo Laboratório Nacional Lawrence Livermore, dos Estados Unidos, decidiu-se dar o nome de livermório ao novo elemento em homenagem à cidade de Livermore, na Califórnia. O nome do elemento foi oficializado em 2012, pela União Internacional de Química Pura e Aplicada – IUPAC.
O grupo de Dubna produziu o livermório com a reação de 248Cm com 48Ca – cúrio e cálcio, elementos 96 e 20, respectivamente. Ele apresentou meia-vida de 18 milissegundos, ou 0,018 segundos, e decaiu em 288Fl, fleróvio, elemento 114. Em maio de 2001, o Instituto anunciou ter sintetizado um segundo átomo de livermório, e suas propriedades confirmaram a existência de uma região de maior estabilidade, conhecida como ilha de estabilidade.
Em 2004, também no Instituto Central de Pesquisas Nucleares, na Rússia, a síntese deste elemento foi confirmada por outro método: a identificação química dos produtos finais após o decaimento do elemento.
A reação que sintetizou o livermório é descrita como:
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Em 47 milissegundos o elemento exibiu decaimento alfa em um isótopo previamente identificado do elemento 114, fleróvio:
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Polêmica e demissão marcaram a descoberta do elemento
Uma grande polêmica cercou a descoberta do elemento 116, envolvendo um pedido público de retratação e até mesmo uma demissão.
Em 1999, o Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, na Califórnia, anunciou a descoberta dos elementos 116 e 118 em um artigo publicado no jornal Physical Review Letters. O impacto na época foi muito grande, já que os dois elementos eram os mais pesados obtidos sinteticamente, e os dados apresentados pelo Laboratório Lawrence de Berkeley resultavam de uma nova estratégia de pesquisa. O elemento 116 foi denominado ununhexium, de acordo com os padrões da União Internacional de Química Pura e Aplicada – IUPAC – para novos elementos.
Os problemas começaram quando nenhum outro grupo de cientistas conseguiu repetir o processo de obtenção do elemento 116. Laboratórios da Alemanha e da Rússia reportaram resultados diferentes dos apresentados no estudo. A partir daí, um grande processo de checagem e avaliação começou na Califórnia, e os dados daquele estudo passaram a ser analisados minuciosamente.
Uma investigação interna foi realizada no Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, e seus resultados foram devastadores: descobriu-se que um dos pesquisadores que lideravam o experimento havia falsificado dados cruciais para forjar a obtenção dos elementos 116 e 118. Em 2000, o Laboratório foi obrigado a publicar uma retratação.
O diretor do Laboratório admitiu que a descoberta dos elementos 116 e 118 fora baseada em dados forjados, e um dos autores da pesquisa, o búlgaro Victor Ninov, acabou demitido. Embora o afastamento de Ninov não tenha sido anunciado publicamente, o pedido de retratação e cancelamento do estudo foi assinado por todos os autores do estudo, menos Ninov, na mesma Physical Review Letters. A repercussão foi imediata.
Aplicações
O livermório possui aplicação restrita à pesquisa científica, devido à baixa quantidade de produção e à alta instabilidade, tempo de meia vida muito curto. Porém estudos adicionais são importantes e fundamentais para expansão de conhecimentos sobre os elementos superpesados e para melhor compreensão da tabela periódica.
Referências
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HAYNES, W. M., ed., CRC Handbook of Chemistry and Physics , CRC Press/Taylor and Francis, Boca Raton, FL, 97ª edição, versão da Internet de 2015, acessado em maio de 2025.
Texto produzido pela jornalista Mari Menda, da Gerência de Relações Institucionais do CRQ-SP,
e revisado pela Profa. Dra. Márcia Guekezian, Coordenadora do curso de Engenharia Química
da Faculdade de São Bernardo do Campo – FASB.
